CPLP - Uma nova oportunidade na cimeira de Brasília?
O Brasil assume agora a presidência de uma organização idealizada por um brasileiro, numa conjuntura de renovação política no país. Parecem estar reunidas, nos dias de hoje, as condições para dar a conhecer aos brasileiros, em primeiro lugar, a sua existência e valorizar a sua importância. O que nunca foi feito. A oportunidade é esta.
Os nove estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) reúnem-se no início desta semana em Brasília para realimentarem a organização lusófona que nasceu há duas décadas. Chefes de Estado e de governo dos "nove" vão tornar público, terça-feira, o documento final da reunião de cúpula preparada nos últimos dias pelas chancelarias lusófonas. O imenso Brasil vai assumir a presidência da entidade e o pequeno arquipélago de São Tomé e Príncipe, em águas africanas equatoriais, o secretariado-executivo, com sede em Lisboa.
Como quase sempre acontece em reuniões de cúpula será um documento cujo conteúdo deverá agradar gregos e troianos, ou, senão agradar, pelo menos não descontentar. O que, se assim for, significará que a diplomacia faz por merecer os proventos que lhes são destinados pelos erários públicos de cada um dos países integrantes.
Mais do que discutir o que levou a ex-presidente Dilma Rousseff a impor aos correlegionários e servidores públicos, durante o seu mandato, o uso do "presidenta" em vez de "presidente", como estabelecem as regras gramaticais definidas pelos especialistas da língua portuguesa das várias paradas do mundo, o importante é dar novo alento à CPLP.
Entre os que defendem que a comunidade lusófona seja mais que que uma montra de desejos que, recorrentemente, têm sido adiados e guardados nas gavetas das "nuvens" dos servidores governamentais, e os que querem uma CPLP que vá adquirindo um perfil de bloco, não apenas linguístico mas também econômico, comercial, e de livre circulação de pessoas, como defendem, por exemplo Timor Leste e Cabo Verde, há ainda um longo caminho a percorrer.
Com a maioria dos países membros a sofrerem as sequelas de economias quase estagnadas, como acontece com Portugal, praticamente sem crescimento econômico há 16 anos, ou ainda mergulhados em graves crises econômicas, como são os casos do Brasil, abalado por prolongada recessão e a tentar superar agora grave crise política, ou de Moçambique e Angola, com as contas públicas no vermelho e crescente insatisfação social, agravada no país do Índico por confrontos armados entre tropas governamentais e a Renamo, o maior partido oposicionista, com representação parlamentar, a definição de novos objetivos estratégicos comunitários não é fácil. E, como se sabe, ´casa onde não há pão, todos brigam ou ralham e ninguém tem razão'.
Desta vez caberá ao Brasil conduzir, nos próximos dois anos, os destinos da CPLP, criada por inspiração política de um brasileiro, o ex-ministro, ex-governador do Distrito Federal e ex-embaixador do Brasil em Lisboa José Aparecido de Oliveira. Um mineiro, de Conceição do Mato Dentro, que conseguiu envolver no projeto o ex-presidente de Portugal Mário Soares, mas que, marcado pelas vicissitudes políticas da época, não conseguiu transmitir aos governantes do seu próprio país o entusiasmo com que enfrentou dificuldades e desconfianças nas várias capitais dos países que agora se reúnem em Brasília.
Aparecido de Oliveira foi sendo esquecido. Um dia, há meia dúzia de anos, durante um debate no auditório da Embaixada de Portugal em Brasília, alguém evocou a importância de homenagear o idealizador da CPLP, cuja paternidade chegou a ser atribuída, erroneamente, a José Sarney. Poucos minutos depois da sugestão, o ministro das Relações Exteriores brasileiro na época entrava no auditório para declarar o seu apoio à distinção. Foi sugerida, se a memória não me falha, a criação de um prêmio literário. À semelhança do que frequentemente acontece na CPLP, a promessa ficou por isso mesmo, ou seja, foi acrescentada à lista das promessas nunca cumpridas e dos planos sempre adiados.
A defesa e expansão da língua portuguesa, bandeira erguida por Portugal, não é suficiente para dar novo impulso à CPLP. As pretensões de liderança, custe o que custar, dos dirigentes angolanos – como se viu no polêmico processo de adesão da Guiné Equatorial, ou, recentemente, na escolha de São Tomé e Príncipe para indicar o próximo secretário-executivo da comunidade, que deveria ser atribuído a Portugal, de acordo com o regulamento interno, também não têm ajudado. E as preferências brasileiras pelo bilateralismo, como aconteceu durante os governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, quando não o desinteresse escancarado dos anos Dilma, não têm contribuído para levar a CPLP a ter uma dinâmica própria e a conquistar a projeção que todos, afinal, afirmam desejar nos discursos de boas intenções que se sucedem de dois em dois anos.
O Brasil assume agora a presidência de uma organização idealizada por um brasileiro, numa conjuntura de renovação política no país. Parecem estar reunidas, nos dias de hoje, as condições para dar a conhecer aos brasileiros, em primeiro lugar, a sua existência e valorizar a sua importância para o país. O que nunca foi feito. A oportunidade é esta.