A reação da imprensa europeia à entrada de Lula no governo
Para "El País", decisão evidencia "fracasso da potência emergente". "Le Monde" afirma que Dilma joga sua última carta. E Tagesschau.de diz que há "agradável efeito colateral" de dificultar investigações por corrupção.
A crise política brasileira voltou a ser destaque na imprensa europeia nesta quarta-feira (16/03), com o ingresso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no governo Dilma Rousseff, como chefe da Casa Civil.
O diário francês Le Monde afirma que, "ao nomear o seu mentor, o fundador do PT, à frente de seu gabinete de governo, a presidente Dilma Rousseff joga sua última carta".
O Le Monde lembrou ainda a famosa frase de 1988, atribuída a Lula, de que "quando um pobre rouba, vai para a prisão; quando um rico rouba, vira ministro", afirmando que os inimigos do presidente não se cansam de repeti-la.
Na Espanha, o jornal El País publica análise na qual afirma que "Lula caiu do cavalo" e acrescenta que "o que fica claro é a profunda imersão no fracasso por que a potência emergente passa". Na matéria que relata a entrada do ex-presidente no governo, o diário escreve que "Lula será o ministro mais importante de Dilma Rousseff" e lembra que o ex-presidente, "acusado no caso Petrobras", passa a ter foro privilegiado.
"Lula está de volta. O carismático presidente que governou o Brasil de 2003 a 2010 regressa ao epicentro do poder: será ministro da Casa Civil, um posto equivalente ao de primeiro-ministro, no convulsionado e atordoado governo de Dilma Rousseff, a mulher que ele mesmo elegeu para sucedê-lo. Mas Lula volta em circunstâncias muito distintas às de quando se foi", escreve o El País.
Em Portugal , o jornal PUBLICO acrescenta, para sobreviver , Lula se tornou ministro. "Afinal, não vai ser preciso esperar até 2018 pelo regresso de Lula da Silva ao governo brasileiro. Ao tornar-se ministro do governo, Lula passa a dispor de imunidade (conhecida no Brasil como “foro privilegiado”) e não poderá ser investigado e julgado por Sérgio Moro, o juiz que está à frente da Operação Lava Jato; o único órgão competente para o fazer passa a ser o Supremo Tribunal Federal, que ainda terá de decidir se vai conduzir uma investigação.
A entrada de Lula no governo de Dilma – seis anos depois de ter terminado o seu segundo mandato como o Presidente mais popular de todos os tempos – corre o risco de ser visto como uma estratégia de sobrevivência pessoal numa altura em que a sua credibilidade pública já está bastante debilitada pela percepção de que a corrupção prosperou como nunca sob a sua liderança e de que ele não só não fez nada para impedi-lo como também esteve directamente envolvido". No outro colono, este jornal adinata: "Com essa escolha criou para si um estatuto especial de imunidade perante a lei. E com esse estatuto desfez todo o seu legado político. Deixou de ser o que foi e, politicamente, passou a ser coisa nenhuma. Quem o viu fotografado de tez suada nos combates sindicais do final dos anos 70 em São Paulo, no vale do Jequitinhonha a proclamar o fim da pobreza ou, em 1999, na Marcha dos 100 mil, a pedir “ética na política”, olha para ele por estes dias e vê apenas uma figura patética empenhada na insensatez da sua desconstrução"
A emissora britânica BBC afirma que Lula será o "chefe de gabinete de Rousseff" e lembra que a indicação "protege Lula de um possível processo por um juiz federal que investiga um amplo escândalo de corrupção chamada Operação Lava Jato".
Na Alemanha, o site de notícias Tagesschau.de afirma que houve uma "reviravolta surpreendente no Brasil: o ex-presidente Lula deverá ajudar a presidente Rousseff a permanecer no cargo". A matéria afirma que Lula terá um cargo "muito influente no governo", com o "agradável efeito colateral" de que as investigações por corrupção, das quais ele é alvo, "serão dificultadas".