Brasil: Crise e política externa
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Os recursos de poder do Brasil nas relações internacionais estão em deterioração. O país está sem bússola nas relações exteriores para construir uma agenda estratégica de qualidade, capaz de tracionar os interesses nacionais em consonância com a ordem internacional.
(last modified 2018-08-22T11:00:24+00:00 )
Mar. 23, 2016 02:09 UTC
  • Brasil: Crise e política externa

Os recursos de poder do Brasil nas relações internacionais estão em deterioração. O país está sem bússola nas relações exteriores para construir uma agenda estratégica de qualidade, capaz de tracionar os interesses nacionais em consonância com a ordem internacional.

Recente estudo da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, sobre os recursos de poder de uma nação, sua influência e importância no sistema internacional coloca o Brasil na 22ª posição, atrás de Egito, Arábia Saudita, Israel, Índia, e Suécia, entre outros.

Apesar de o estudo merecer ressalvas sobre parâmetros, os resultados indicam a reduzida relevância de nossa atividade diplomática.

Os critérios adotados para mensurar o poder de uma nação foram: dinamismo econômico; alianças internacionais relevantes; influência política; capacidade militar.

Para um país como o Brasil, em que as Forças Armadas necessitam urgentemente de modernização e a economia vive de picos cíclicos entre avanços e retrocessos, restaria apenas a diplomacia como instrumento efetivo de poder para tentar compensar o desequilíbrio causado pela ausência de outros recursos.

Se a política externa já não era prioridade, na crise que paralisa o governo ela estará em ponto morto.

Seus problemas centrais têm como pano de fundo três matrizes anacrônicas. A primeira está ligada à percepção das dimensões do país e de suas potencialidades. A segunda se relaciona com o processo de formulação estratégica, em que se nota ausência de criatividade, ousadia e coerência. O terceiro problema deriva do obsoleto modus operandi da diplomacia brasileira.

Ao esquivar-se, em sua visita a Lisboa nos últimos dias, e apenas repetir que "está tudo bem" e "não há problemas no Brasil", como flagrado por uma TV portuguesa, o chanceler Mauro Vieira perdeu a chance de fazer algo pelo país e defender a legitimidade presidencial.

Seria uma ocasião para Vieira mostrar liderança e salientar que o país é um Estado democrático com instituições sólidas e autônomas, e enfatizar que, apesar da instabilidade política, ainda está entre as dez maiores economias do mundo.

Deveria ser um daqueles momentos em que a autoridade pública faz da ocasião o seu legado, mostrando sua grandeza e a do país que representa. Todavia, a fuga desarrazoada de Vieira apenas evidenciou a falta de comando, estratégia e argumentos de uma instituição que, outrora, foi motivo de orgulho.

Em momento de aguda crise institucional e com a "venezuelização" da sociedade brasileira em polos radicalizados e intolerantes, em cenário de imobilismo político e panorama econômico decrépito, a declaração serviu apenas para reduzir o tamanho do Brasil no exterior.

Submergir e aguardar os acontecimentos não é necessariamente demonstração de prudência. A impressão que se transmite para a sociedade é que a escolha de um burocrata desse perfil para funções estratégicas de Estado não se adequa ao que se espera para o Brasil.

Sem recursos, diretrizes nem liderança, e na atual conjuntura, a política externa será a última prioridade. Já o Itamaraty ficará mais imerso no isolamento burocrático.

por: Hussein Khalud

É cientista político, especialista em política internacional e Oriente Médio e pesquisador da Universidade Harvard. Foi consultor da ONU. Escreve às segundas, a cada duas semanas no jornal Folha de São Paulo.