Organização Mundial do Comércio cautelosa face a discurso de Trump
O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevedo, mostrou-se hoje cauteloso face ao discurso anti comércio livre do Presidente norte-americano eleito, Donald Trump, afirmando que só irá pronunciar-se sobre políticas reais e concretas.
Em declarações aos jornalistas em Genebra na sede da OMC, Roberto Azevedo sublinhou que é prematuro especular sobre o que fará o futuro Presidente norte-americano quando assumir o poder.
"Não sei quais serão as políticas comerciais" da futura administração norte-americana, acrescentou o representante oriundo do Brasil.
"É preciso dar-lhe uma oportunidade", afirmou Azevedo.
Durante a campanha eleitoral, Donald Trump qualificou a OMC (entidade que rege o comércio mundial) como um "desastre", sugerindo desta forma que desejava retirar os Estados Unidos daquela organização.
"Não tive qualquer indicação de que será esse o caso", sublinhou o diretor-geral da OMC, afirmando, quando questionado por um jornalista, não ter falado ainda com Trump desde a sua eleição no passado dia 08 de novembro.
"É o que precisamos fazer, estarmos preparados para uma conversa" com a equipa económica de Donald Trump, acrescentou.
Azevedo reconheceu que muitas pessoas no mundo consideram que o comércio mundial está a destruir o trabalho, mesmo que tal perceção não seja fundamentada em qualquer prova.
E sublinhou que qualquer melhoria do projeto de globalização não se deve traduzir em medidas protecionistas.
"Se o remédio só passa pelo protecionismo, vamos agravar só o estado do doente", considerou o representante.
Segundo o diretor-geral da OMC, certos políticos utilizam a mundialização como bode expiatório para explicar o desemprego e as dificuldades económicas.
"Um erro que cometemos no passado, incluindo em organizações como a minha, era deixar que as pessoas pensassem que o comércio é uma coisa adquirida. (...) É preciso defender novamente o comércio", frisou.
O Presidente eleito norte-americano também anunciou a sua intenção de abandonar o Tratado Transpacífico de Comércio Livre (TPP) no dia em que assumir o cargo.
Numa curta mensagem de vídeo, divulgada na terça-feira, o multimilionário qualificou o TPP como um "desastre potencial" para os Estados Unidos.
Este tratado, firmado em 04 de fevereiro após seis anos de negociações, foi assinado por 12 países: Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Estados Unidos, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Singapura e Vietname.
Nos Estados Unidos, o tratado ainda precisa de ser aprovado pelo Congresso norte-americano, controlado pelo Partido Republicano.
O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, reiterou hoje que "o TPP sem os Estados Unidos não terá sentido".
Shinzo Abe foi o primeiro líder mundial a encontrar-se com o Presidente eleito dos Estados Unidos, num encontro que decorreu em 18 de novembro na Trump Tower, em Nova Iorque, em que Trump esteve acompanhado pela filha Ivanka e pelo genro, Jared Kushner.
Várias vozes, incluindo a chanceler alemã Angela Merkel, admitiram também que o acordo de livre comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, TTIP na sigla em inglês) não será concluído agora, após a eleição de Donald Trump.
O acordo de livre comércio transatlântico está em negociação desde 2013 e era um dos principais focos da administração democrata do ainda Presidente Barack Obama.